ABC do Cancro  
 

O que é o Cancro?

 

O nosso organismo é constituído por células que se dividem periodicamente e de forma regular de forma a substituir as envelhecidas ou mortas. Se descontrolado numa ou mais células, este processo conduz a divisões descontroladas que poderão dar origem a um tumor, benigno ou maligno. Se este não tem a capacidade de se espalhar por metástases ou de se infiltrar nos tecidos adjacentes (carcinogénese), estamos na presença de um tumor benigno, que geralmente não apresenta risco de vida e pode ser removido. O tumor maligno, ou cancro, acontece se, pelo contrário, as suas células conseguem invadir e danificar os tecidos e órgãos circundantes e eventualmente libertar-se do tumor primitivo, entrando na corrente sanguínea ou no sistema linfático.

 

Para que se desenvolva um cancro é necessário se produzam alterações celulares contínuas durante longos períodos de tempo (geralmente anos).


O nome dado à maioria dos cancros provém do tumor inicial. Por exemplo, o cancro da mama tem início na mama. Quando o cancro se espalha para outros órgãos, o novo tumor tem o mesmo tipo de células anormais do tumor primário. Se o cancro da mama metastizar para os ossos, as células cancerígenas nos ossos serão células de cancro da mama, devendo ser tratadas como tal, pois neste caso trata-se de um cancro da mama metastizado e não de um tumor ósseo.

 


Tipos de Cancro

 

Consoante o tipo de células avaliado podem distinguir-se vários tipos de cancro:

  • Carcinoma: tumor maligno com origem na membrana que cobre os órgãos (células epiteliais) e que representa cerca de 80% dos tumores cancerígenos;
  • Melanoma: tumor maligno geralmente com cura (detecção precoce), com origem nas células que produzem a pigmentação da pele (melanócitos) e que tem tendência para se espalhar para outras zonas do corpo;
  • Leucemia: cancro no sangue que se caracteriza por um aumento do número de glóbulos brancos;
  • Linfoma: cancro no sistema linfático que ataca os linfócitos (o Linfoma de Hodgkin e o Linfoma não Hodgkin são os principais).


Factores de Risco

 

Apesar de ser difícil justificar a maior probabilidade de um pessoa desenvolver cancro relativamente a outra, têm sido realçados alguns factores de risco que facilitam o surgimento desta doença:

  • Idade - É o principal factor de risco, sendo que a maioria dos cancros ocorre em pessoas com mais de 65 anos. No entanto, o cancro pode surgir em pessoas de todas as idades, incluindo crianças.
  • Tabagismo - Em Portugal, todos os anos morrem cerca de 3100 pessoas com cancro do pulmão. Fumadores tem risco aumentado de desenvolver cancro dos pulmões, laringe, boca, esófago, bexiga, rins, garganta, estômago, pâncreas, colo do útero, ou leucemia mielóide aguda. Pessoas que usam tabaco para cheira ou mastigar, têm risco aumentado para cancro da boca.
  • Radiação solar - A radiação ultravioleta (UV) provém do sol, de lâmpadas solares e de câmaras de bronzeamento; provoca envelhecimento precoce da pele e alterações que podem originar cancro de pele.
  • Radiação ionizante - A radiação ionizante pode causar lesões na pele que conduzem à formação de tumores. É o tipo de radiação que provém de raios que entram na nossa atmosfera (terrestre), vindos do espaço exterior, poeiras radioactivas, gás radão, raios-X, entre outras fontes. As pessoas expostas ao radão (existente nas minas, por exemplo) apresentam um risco aumentado para terem cancro do pulmão.
  • Determinados químicos - A exposição ao amianto, benzeno, cádmio, níquel ou cloreto de vinilo, no local de trabalho, podem causar cancro, bem como a manipulação de pesticidas, óleo de motor usado, tinta, solventes e outros químicos;
  • Determinados vírus e bactérias - Estar infectado com determinados vírus e bactérias pode aumentar o risco de desenvolver alguns tumores:
    • Vírus do Papiloma humano (HPV ): a infecção por HPV é a principal causa de cancro do colo do útero; pode, ainda, ser um factor de risco para outro tipo de tumores.
    • Vírus da hepatite B e C: o cancro do fígado pode desenvolver-se, muitos anos depois da infecção com hepatite B ou hepatite C.
    • Vírus dos linfomas T humanos (HTLV-1): a infecção por HTLV -1 aumenta o risco de desenvolver linfoma e leucemia.
    • Vírus da imunodeficiência humana (HIV): o HIV é o vírus que provoca a SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida). As pessoas que estão infectadas com o HIV , têm maior risco de desenvolver cancro: linfoma e um tipo de tumor raro, chamado Sarcoma de Kaposi .
    • Vírus de Epstein-Barr (EBV): a infecção com EBV tem sido associada a um risco aumentado de linfoma.
    • Vírus do Herpes Humano 8 (HHV8): este vírus é factor de risco para o Sarcoma de Kaposi .
    • Helicobacter pylori: esta bactéria pode causar úlceras no estômago; pode, ainda, causar cancro do estômago e linfoma, no revestimento do estômago.
  • Determinadas hormonas - Alguns estudos demonstram que a terapêutica hormonal, na menopausa, pode causar efeitos secundários graves, nomeadamente o aumento do risco de cancro da mama.
  • Alcoolismo - Beber mais de duas bebidas alcoólicas por dia, durante muitos anos, pode aumentar a probabilidade de desenvolver cancro da boca, garganta, esófago, laringe, fígado e mama.
  • Dieta pobre, falta de actividade física ou excesso de peso - Estes são factores de risco que se podem facilmente controlar, de tal forma que lhes dedicámos dois artigos este mês. Não se esqueça de os ler também.


Formas de Diagnóstico

 

Quanto mais cedo for detectado um cancro, maior a probabilidade de cura.


É importante que cada um de nós se mantenha atento à sua saúde e às variações do próprio organismo, fazendo exames regulares, mesmo quando não há qualquer sintoma, pois o problema pode estar presente. Se o rastreio for realizado periodicamente, a detecção precoce de eventuais tumores será conseguida com antecedência, aumentando enormemente as hipóteses de sucesso no tratamento.

 

Os exames de rastreio são muito comuns no despiste de alguns tipos de cancro:

  • Mama: Auto-exame da mama e/ou exame clínico da mama devem ser realizados com alguma regularidade, em qualquer idade. A mamografia deve ser realizada anualmente ou de 2 em 2 anos, em mulheres a partir dos 40 anos; mulheres que tenham risco aumentado para cancro da mama, devem falar com o médico para saber qual a frequência com que devem fazer a mamografia.
  • Colo do útero: o teste de Papanicolau deverá ser repetido, pelo menos, uma vez de 3 em 3 anos.
  • Cólon e Recto: O rastreio deste cancro deve ser feito a partir dos 50 anos ou se for através de sangue oculto nas fezes (por vezes, o tumor ou os polipos sangram), sigmoidoscopia (tubo flexível com luz e câmara na extremidade), colonoscopia (tubo longo flexível iluminado, cuja luz se transmite até à ponta distal do aparelho, e onde existe um sistema de câmara), clister opaco de duplo-contraste (exame radiológico efectuado por injecção de uma solução de bário, através do recto), toque rectal.
  • Próstata: Análises sanguíneas (para medir nível de PSA), análise à urina (para detectar sangue ou infecção) e toque rectal, devem ser realizados anualmente a partir dos 50 anos, ou 40 anos, em caso de americanos, africanos, europeus ou com presença de história familiar de cancro.

O médico deve ser consultado acerca dos possíveis benefícios e riscos de fazer o despiste de qualquer tipo de cancro.

 

 

Sintomas

 

Diversos podem ser os indicadores de que um tumor se está a desenvolver no nosso organismo:

  • Espessamento, massa ou "elevação" na mama ou outra parte do corpo;
  • Sinal novo ou alteração de um já existente;
  • Ferida que não cicatriza;
  • Rouquidão ou tosse prolongada;
  • Alterações relevantes na rotina intestinal ou da bexiga;
  • Desconforto depois de comer;
  • Dificuldade em engolir;
  • Alterações de peso sem motivo aparente;
  • Sangramento ou qualquer secreção anormal;
  • Sensação de fraqueza ou extremo cansaço.

Estes sintomas não estão necessariamente relacionados com cancro, podendo ter origem em tumores benignos ou outras disfunções.


As fases iniciais do cancro geralmente não provocam dor, pelo que qualquer um dos sintomas acima referidos deve ser valorizado, devendo o indivíduo consultar um médico para despiste de eventuais complicações.

 

 

Tratamento

 

Dependendo do tipo de tumor que se tem, o médico especialista poderá variar de acordo com o tratamento que seja necessário fazer (cirurgião, oncologista, ginecologista, pneumologista, etc). Os tratamentos devem começar o quanto antes, no entanto é importante, uma vez que se trata de um assunto muito delicado, ouvir uma segunda opinião, tanto no que se refere aos exames de despiste como aos tratamentos a realizar:

 

  • Quimioterapia - O medicamento anticanceroso ideal é aquele que pudesse destruir apenas as células cancerosas sem lesar as normais, mas este fármaco não existe. O motivo principal da quimioterapia combinada é utilizar medicamentos que actuem sobre diferentes partes do processo metabólico das células, aumentando assim a probabilidade de morrerem muito mais células cancerosas.
  • Radioterapia - destrói sobretudo as células que se dividem rapidamente. Em geral, isto significa que se trata de um cancro, mas a radiação também pode lesar os tecidos normais, especialmente aqueles em que as células se reproduzem normalmente de forma rápida, como a pele, os folículos capilares, a parede interna dos intestinos, os ovários, os testículos e a medula óssea.
  • Cirurgia
  • Terapia combinada – para alguns tipos de cancro, o tratamento ideal é a combinação da cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
  • Imunoterapia - serve-se de técnicas como os moduladores de respostas biológicas, a terapia com células assassinas e a terapia humoral (anticorpos), para estimular o sistema imunitário do organismo contra o cancro.

A prática de exercício físico começa a incluir-se em fases de tratamento de diversos cancros, não com objectivo de cura, mas com a finalidade de reduzir o desgaste provocado pelos tratamentos e melhorar a qualidade de vida.

 

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